sexta-feira, 23 de maio de 2014
Filósofos Pré-Socráticos
Os primeiros filósofos chamavam-se físicos, pois estudavam a Physis, ou natureza. No entanto, eles são mais conhecidos por "Pré-Socráticos", pois vieram antes de Sócrates, que é um divisor de águas na Filosofia.
Os pré-socráticos queriam usar os critérios do Lógos para conhecer, e a primeira coisa que quiseram investigar foi justamente aquilo que estava ao seu redor, isto é, o mundo, a physis.
A primeira coisa que eles perceberam foi que o mundo possui uma regularidade: todos os dias possuem uma manhã, à qual sucede uma tarde, e, em seguida, uma noite, precedendo esta a madrugada, para, então, reiniciar-se o ciclo. O mesmo ocorre com as estações do ano, e com os anos mesmos. Em cada dia, o sol nasce e se põe. Em determinadas estações do ano faz calor, em outras, faz frio; em outras, ainda, o clima é uma espécie de meio termo. Há o tempo dos frutos, e há o tempo em que eles não existem. Uma árvore dá sempre frutos da sua espécie, e o mesmo ocorre com um animal, cujos filhotes nunca diferem da sua espécie. Tudo quanto existe parece estar organizado, ordenado. Para expressar essa idéia, os primeiros filósofos usaram o termo grego "Cosmos" ou "Kósmos" (κόσμος), que significa exatamente isto: ordem, organização.
Cosmos é o oposto de caos, que sugere a idéia de desordem ou bagunça. O mundo estava organizado. Logo, o mundo era cosmos. Essa é a primeira descoberta dos pré-socráticos. A consequência era que, se o mundo está ordenado, ele possui um sentido interno, ou seja, um lógos ou uma lógica. Portanto, pode ser compreendido. É o lógos o que dá ordem, isto é, o que torna cósmos. Se o mundo é cosmos, é porque possui lógos. Desse modo, revelava-se possível às pessoas entender o mundo a partir de suas inteligências pessoais. Isto fez com que elas se tornassem cada vez menos dependentes dos mitos para a compreensão do mundo.
Uma característica importante dos pré-socráticos era a de procurar a origem do cosmos num elemento material, ou, pelo menos, num grupo deles. Este elemento primeiro seria supostamente a origem todos os demais. Os gregos o chamarão pelo nome de "Arché" (pronuncia-se "arqué"), ἀρχή, e significa "origem". Além de originário, este elemento também seria constitutivo, isto é, tudo quanto existe seria um estado diferente deste mesmo elemento.
A idéia de que todas as coisas vieram de uma unidade não nos deve parecer estranha. Primeiramente, todos nós estamos acostumados à idéia da criação segundo a qual Deus, que é Um, fez tudo quanto existe.
Também a moderna Teoria da Evolução, de Charles Darwin, concebe que a imensa variedade de seres no mundo possui um ancestral comum, isto é, veio de um mesmo ser, no iniciozinho, e que, a partir de complicados processos físico-químicos, evoluiu e se diversificou.
Mito e Lógos
Antes do surgimento da Filosofia, no final do séc. VII e início do VI a.C., os gregos buscavam explicar a realidade a partir de critérios diferentes. Vimos anteriormente que o ser humano deseja, pela sua própria natureza, conhecer. Se a Filosofia possui um início, isto significa que, antes dela, os humanos, que já desejavam conhecer, o faziam por outra forma. Esta forma era o Mito.
Mito vem do grego "mithós" (μυθος), significa "verdade contada" ou "narrada" e indica um modo de conhecimento que consiste na explicação sobre a origem das coisas a partir dum relato que é contado de boca em boca e está imbuído de autoridade, pois provém, primeiramente, de uma revelação divina. O mito narra, portanto, um acontecimento primordial, como o nascimento dos deuses, ou do mundo, ou a origem do mal, etc. Obviamente, estes fenômenos ocorreram sem que houvesse testemunhas humanas. De que modo, portanto, pode-se saber deles?
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| O deus Apollo revelando-se |
O mito se dá por revelação. Uma divindade decide revelar-se para um sujeito em particular, que recebe o nome de oráculo ou de poeta-rapsodo, pois ele narra o que lhe foi mostrado a partir de versos. Esta narração é, então, crida pelos demais, pois o poeta rapsodo costumava já ser reconhecido pelos demais como uma autoridade religiosa. E, então, a verdade contada é passada de pessoa a pessoa.
O mito, deste modo, revela-se inquestionável, seja pela sua fonte divina, seja porque é impossível de ser verificável, já que nenhum humano é capaz de subir aos céus e constatar que os raios realmente são flechas de Zeus. Portanto, o mito era um tipo de conhecimento que pressupunha a Fé. Daí a sua semelhança com a religião.
Também no Cristianismo, Judaísmo e Islamismo, há um relato da criação, onde se diz que Deus fez o mundo
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| Zeus atirando raios |
do nada. Ora, obviamente ninguém foi testemunha deste fato, a não ser Deus mesmo. De que modo, então, tomamos conhecimento dele? Foi preciso que surgisse algum homem, supostamente autorizado por Deus, e a quem Deus tivesse se revelado e contado as verdades sobre o início. Em seguida, o profeta escolhido comunicava o que havia recebido aos demais, que, então, ou criam, ou não criam, não existindo uma outra alternativa, já que não está acessível a ninguém saber por si mesmo como se deram os eventos naquele passado remoto.
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| Expulsão de Adão e Eva do Éden |
Ocorreu, porém, que algumas pessoas começaram a achar insuficientes as explicações que os mitos davam, já que isto as submetia às possibilidades de um engano. Por causa disso, passaram a querer conhecer a natureza por si mesmos. Isto não fez com que abandonassem os mitos de vez, mas eles passaram a usar a própria inteligência para conhecer ao menos aquilo que estava ao seu alcance.
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| Primeiros filósofos |
O uso da inteligência vai caracterizar exatamente o Lógos (λόγος), palavra grega que significa "palavra" ou "sentido", ou, ainda, "razão". Esta passagem do mito ao lógos é o que vai significar o nascimento da Filosofia. Este novo modo de conhecimento não exige que se creia na palavra de um outro, mas que cada um, pelo uso correto da inteligência, constate as verdades por si mesmo. Por exemplo: se um pai diz à sua criança que o fogo queima e que, portanto, ela deve ficar longe das chamas, ela pode simplesmente acreditar no que o seu pai diz - o que seria algo semelhante com o conhecimento mítico -, ou ela pode fazer a experiência por si mesma - o que seria o próprio da Filosofia. Do mesmo modo, sabemos que dois mais dois são quatro, não somente porque o ouvimos quando crianças, mas porque percebemos que esta soma está correta na nossa própria mente, sendo dispensável que alguém no-lo confirme.
O lógos, diferente do mito, é sempre questionável, pois cada pessoa, nele, deve fazer uso da própria inteligência, que lhe pertence individualmente. Logo, é verificável. E, ao invés de crido, é entendido e percebido mentalmente. O lógos é o tipo de conhecimento próprio da Filosofia.
O termo lógos vai dar origem a outras palavras, como "lógica" ou "logia", que costumamos traduzir por estudo. Assim, a biologia seria o estudo da vida; a teologia, o estudo de Deus, etc. Estas ciências podem ser entendidas porque elas têm lógos, ou uma lógica interna.
Notemos que, quando algo não é compreensível, dizemos que não tem lógica. Portanto, aquilo que tem lógica (lógos) pode ser compreendido. Isso vai ser fundamental para que compreendamos como os primeiros filósofos desenvolveram suas teorias.
O termo lógos vai dar origem a outras palavras, como "lógica" ou "logia", que costumamos traduzir por estudo. Assim, a biologia seria o estudo da vida; a teologia, o estudo de Deus, etc. Estas ciências podem ser entendidas porque elas têm lógos, ou uma lógica interna.
Notemos que, quando algo não é compreensível, dizemos que não tem lógica. Portanto, aquilo que tem lógica (lógos) pode ser compreendido. Isso vai ser fundamental para que compreendamos como os primeiros filósofos desenvolveram suas teorias.
segunda-feira, 24 de março de 2014
Questões para o primeiro instrumento de Filosofia
Alunos, prestem atenção: abaixo estão as questões de cada ano. Pegue só as do seu ano.
Você vai escrever uma redação de pelo menos 20 linhas explicando o seguinte:
1ºs anos
- O que significa o nome 'Filosofia';
- Qual o processo (caminho) percorrido desde a ignorância até o conhecimento;
- O que é a dúvida e qual a sua importância para o conhecimento;
- O que são o conhecimento pela razão e o conhecimento pelos sentidos. Dê exemplos.
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2ºs anos
- O que é sensibilidade;
- Quais são os dois modos de conhecer próprios do ser humano;
- Por que os sentidos são menos confiáveis que a razão;
- As características do conhecimento sensível e racional.
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3ºs anos
- A diferença entre a Filosofia Moderna e as anteriores;
- Se a Filosofia moderna está voltada para o sujeito ou para o objeto. (Lembrando: sujeito é a pessoa que conhece; objeto é a coisa que é conhecida. Ex.: se eu estudo matemática, eu sou o sujeito e a matemática é o objeto);
- De que modo a percepção (5 sentidos) pode nos enganar.
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Atenção:
- Não precisam copiar esses pontos na folha. Basta fazer só a redação. Eles são somente para orientar vocês sobre o que escrever;
- Como já dito, é uma redação; não façam respostas a cada questão acima separadamente como se fosse uma atividade. Façam um texto corrido;
- O trabalho, para vocês, deve ser INDIVIDUAL;
- Expliquem as respostas;
- Não filem. Naturalmente, vocês vão poder olhar no caderno ou na net. Porém, se vocês colocarem igualzinho ao caderno ou à net, eu vou saber. A consulta deve ser apenas para vocês lembrarem do assunto. A escrita, porém, deve ser com as palavras e o entendimento de vocês;
- Se duas folhas estiverem com a mesma resposta, as duas serão anuladas.
Critérios de Avaliação:
- Quantidade de linhas (mínimo de 20);
- Objetividade (não fugir do assunto nem falar da vó);
- Argumentação (explicar o que está escrevendo);
- Coesão textual (não escrever doidamente, mas com ordem).
quarta-feira, 19 de março de 2014
Modernidade e o culto do Eu
Nas sociedades antigas, era comum vermos as pessoas se sacrificando por realidades que consideravam superiores a si mesmas, como a família, a sociedade, ou mesmo ideais como honra, justiça, etc. Na Grécia, os cidadãos eram educados num conceito de virtude que se chamava 'Areté'. Isto fazia com que o grego vivesse em função da cidade, e que a maior honra de um grego fosse morrer em combate em defesa do seu povo, de modo que, quando eles voltavam das guerras, as suas mulheres, que os estavam esperando, faziam festa se eles não retornassem, pois perecer em combate era um modo de completar a sua formação moral.
Algo similar ocorria com os antigos samurais do Japão. Se, numa luta, um deles perdesse e não morresse, ele considerava que manter-se vivo seria desonrar a si mesma, à sua família e à sua comunidade. Deste modo, eles realizavam o Haraquiri, ritual onde eles se suicidavam com a ajuda de um amigo samurai.
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| Haraquiri Samurai |
Em ambos os casos, vemos que o sujeito individual está a serviço de realidades que ele entende mais nobres que a própria vida. Os primeiros cristãos também tinham essa prática: para eles, era a suprema honra morrer por Deus. De novo, a idéia de que a vida pessoal deve estar a serviço de algo que os ultrapassa.
Na sociedade moderna, ao contrário, as pessoas acostumaram-se a viver somente para o próprio eu. O que há de mais importante é satisfazer às próprias vontades, aos próprios caprichos. Os amigos são mantidos enquanto podem proporcionar prazer. Os relacionamentos avançam rapidamente para o contato sexual porque o que importa é satisfazer-se. Os casamentos se dissolvem facilmente porque a idéia de sacrifício saiu do horizonte das pessoas, e em seu lugar estabeleceu-se a idéia de que o Eu é o centro do mundo. A própria idéia de Deus tornou-se somente um meio para adquirir riquezas, poder, status, etc.
A que se deveu tão radical mudança nos costumes? Quando chegamos a um ponto, é preciso observarmos qual o caminho que a ele conduziu. E, ao olharmos a história, é possível perceber alguns eventos que pelo menos influenciaram esta mudança de mentalidade. Dentre eles, citamos somente três:
- A Reforma Protestante (1517) - Esta reforma aconteceu porque um monge agostiniano chamado Lutero, descontente com alguns ocorridos locais, resolveu romper com a Igreja Católica e, no intuito de atacá-la, elaborou as chamadas 95 teses. O que nos importa nisso tudo é a mudança de perspectiva que ele provocou com relação à Sagrada Escritura. Antes dele, a Bíblia era sempre interpretada e ensinada pela Igreja Católica. Além disso, era dificílimo alguém ter uma bíblia pelo simples fato de que, não havendo ainda a imprensa, não tinha como imprimir bíblias e levá-las para casa. O único modo de tê-las era pedir a um monge copista para copiá-la inteira, o que demorava e custava caro, ou, então, copiá-la a própria pessoa de próprio punho. Obviamente que, além de nem todo mundo saber ler e escrever, menos ainda tinham disposição de fazer tamanho esforço. Assim, as pessoas tomavam conhecimento do conteúdo bíblico através das Liturgias católicas. Lutero, contudo, traduziu a Bíblia para o alemão, de modo que as pessoas agora podiam lê-la na sua própria língua, pois, antes, a Bíblia estava sempre em latim. Nesta mudança, Lutero dizia que os simples leigos não necessitavam mais da hierarquia da Igreja para compreender as verdades bíblicas. Bastaria que eles lessem por si mesmos e o Espírito Santo lhe ensinaria pessoalmente. Ora, isso gerou nas pessoas a idéia de que elas tinham um acesso privilegiado a Deus e que, portanto, não precisavam mais da Igreja. A consequência foi uma consciência aumentada do valor do próprio eu, o que também representou uma gênese de individualismo.
- Renascimento e Invenção da Imprensa - Por volta de 1439, o gráfico alemão Johannes Gutemberg inventou a primeira máquina de impressão, o que viria, mais tarde, a revolucionar a cultura. A partir desta invenção, alguns conteúdos culturais próprios da sociedade antiga - sobretudo Grécia e Roma - puderam ser divulgados e lidos. Antes disso, toda a educação ficava por parte da Igreja. As universidades, criadas por ela, obviamente estavam sob seu domínio. As crianças não tinham outra alternativa a não ser estudar nas escolas vinculadas aos mosteiros. Isto se dava não por qualquer estratégia de dominação da Igreja, mas porque todas as iniciativas educativas vinham por meio dela. Agora, porém, com a divulgação destes conteúdos antigos, as pessoas podiam ter a possibilidade de terem uma auto-educação, isto é, podiam aprender sem necessariamente pôr-se sob a influência da Igreja. Isto favoreceu também uma idéia de autonomia intelectual e aumentou, também, a idéia da importância de si mesmos, já num tipo de educação que ia se tornando progressivamente secular - isto é, não religiosa.
- Iluminismo - foi um movimento intelectual ocorrido no século XVIII, sobretudo na França. O termo "Iluminismo" ou "Século das Luzes" foi usado para contrariar a Idade Média que eles chamavam de "Idade das Trevas". As trevas aí se referiam à idéia de uma educação vinculada e submetida à religião. Na modernidade, no entanto, eles diziam que a razão estava solta e que podia desenvolver-se à vontade sem os limites impostos pela religião. Daí que as "luzes" do iluminismo representavam a razão humana, que, segundo acreditava-se, agora iria poder levar a humanidade um novo nível de civilização, já que havia se livrado da 'superstição religiosa'. Isto significou uma confiança exagerada na razão pessoal, e como a razão é algo individual - cada um tem uma -, as pessoas passaram a creditar um valor exacerbado ao próprio Eu.
Estas são apenas algumas das influências históricas que geraram a percepção característica da modernidade, que é uma atenção privilegiada ao próprio eu.
Platão: Sensibilidade x Razão
Para compreendermos Platão, é preciso, primeiramente, reconhecermos que nós temos em nós dois modos de conhecer. O primeiro é o dos 5 sentidos: visão, audição, tato, olfato e paladar. O segundo é o da Razão.
A razão é interna a nós. Já os sentidos são como janelas que nos informam sobre aquilo que acontece fora de nós. Ao sairmos de casa, vemos pessoas, escutamos sons, sentimos cheiros, tocamos objetos, etc. Todos esses conhecimentos nos vêm pelos sentidos.
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| Os sentidos são janelas |
Ao entrarem em nós, essas informações sensíveis (dos sentidos) comunicam-se à razão.
Porém, existem também conhecimentos específicos que são da razão, e não dos sentidos. Por exemplo: quando calculamos 5+5, nós sabemos que o resultado é dez, não porque vejamos ou escutemos. Não é nenhum sentido que faz o cálculo, mas a pura razão. O mesmo ocorre quando dizemos que todo ser humano é mortal. Ora, não há como sabermos isto pelos sentidos. De fato, é verdade que vemos uma ou outra pessoa mortas. Porém, daí não é possível dizer, com base nisso, que todas as pessoas morrem. Se assim fosse, ao virmos algumas pessoas com diabetes, diríamos que todas as pessoas têm diabetes, o que não é correto. Ora, sabemos que todas as pessoas morrem por uma operação da pura razão. Só ela pode dizer da totalidade dos homens mesmo que os sentidos nunca tenham visto a todos os homens, etc.
Pelos sentidos, nós conhecemos somente as realidades físicas: cores, tamanhos, cheiros, gostos, formas, etc. Isto significa que qualquer realidade que não seja material não será percebida pelos sentidos: ex.: pensamentos, sonhos, desejos, e quaisquer realidades sobrenaturais, como anjos, almas, Deus, etc. Estas outras realidades, se podem ser conhecidas, o podem a partir ou da pura razão ou de alguma outra capacidade interna humana.
O conhecimento que vem dos sentidos chama-se 'conhecimento sensível' ou 'sensibilidade'. O conhecimento que vem da razão chama-se 'conhecimento racional'.
Agora, observemos os casos abaixo e digamos se eles são conhecimentos sensíveis (e de qual sentido) ou racionais:
1- O sol é menor que a terra;
2- A laranja estava doce;
3- A equação estava correta;
4- O barulho é muito alto;
5- As pessoas têm sonhos;
6- A palavra estava escrita errada.
Respostas:
1- é um conhecimento sensível, porque dizemos que o sol é menor que a terra com base naquilo que vemos. No entanto, sabemos que o sol, na verdade, é bem maior que a terra. Este último conhecimento é racional.
2- Conhecimento sensível; paladar.
3- Conhecimento racional, porque é a razão que calcula; lembremos que equações são operações matemáticas;
4- Conhecimento sensível; audição;
5- Conhecimento racional, pois não é possível saber, pelos sentidos, dos sonhos das pessoas, a menos que elas contem. No entanto, mesmo que não nos digam, sabemos que elas têm sonhos;
6- Conhecimento racional. À primeira vista, podemos pensar que se trata de um conhecimento sensível, pois conhecemos a palavra escrita pela visão. No entanto, é a razão que percebe se ela está certa ou errada. O olho apenas informa, mas não sabe dizer se está correta. Este é um trabalho da razão.
Os conhecimentos sensíveis são, ainda, mutáveis, isto é, estão sempre nos dando informações que mudam. Três pessoas irão discordar sobre a frieza do tempo ou de um ar condicionado, bem como sobre a doçura ou o amargor de um café. Uma mesma pessoa terá opiniões diferentes sobre uma mesma música desde que a escute diversas vezes, etc. Os sentidos sempre nos dizem algo diferente. Se assim é, não é possível saber, através deles, como é a realidade em si mesma. Se uma pessoa diz que o café está amargo, outra diz que está doce, outra ainda que não está nem amargo nem doce, como sabermos se o café está, de fato, bom? Se uma pessoa nos diz que o ar condicionado está muito frio, outra diz que não está e que ainda está quente, e outra, enfim, diz que o clima está perfeito, como saber a realidade? Pelos sentidos, não é possível.
Pelos sentidos, então, não é possível dizer o que são as coisas, já que aquilo que eles nos dizem está sempre mudando. Aquele que se baseia nos sentidos para falar da realidade termina emitindo uma impressão individual e particular, que chamamos de opinião.
A razão, pelo contrário, nos diz sempre a mesma coisa. Se perguntarmos se o tempo está frio ou quente, as pessoas discordarão porque estão usando a sensibilidade. Porém, se perguntarmos: "o que é o frio?", estamos forçando-as a responder usando a razão e, assim, as respostas serão sempre as mesmas e nunca mudarão. Mesmo que cada um a expresse de um modo diferente, no fundo a idéia será a mesma. 2+2=4 - Esta é uma verdade válida desde o início do mundo e será válida até o fim do mundo, em qualquer lugar. Isto se dá porque a razão nos dá informações que correspondem à realidade e que, por isso, não mudam, a menos que a realidade mude, o que não ocorre.
A razão nos dá, não a opinião, mas a verdade.
Do acima dito, podemos concluir que a razão - que sempre nos diz a mesma coisa - é mais confiável que os sentidos - que nos dizem sempre coisas diferentes. Platão, ao perceber isto, chegará a afirmar algo muito sério: a realidade sensível, tal qual a conhecemos, é uma grande ilusão.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Conceito e conhecimento
Dizíamos que o ser humano tem
um desejo natural de conhecer e que este desejo se manifesta como pergunta. A
primeira pergunta que fazemos àquilo que queremos conhecer é: “o que é isto”?
Quando fazemos esta pergunta, não estamos nos perguntando a respeito de
caracteres secundários1. Ao olharmos uma árvore e nos perguntarmos “o que é
isto?”, não estamos querendo saber da sua cor ou do tamanho das suas folhas. Desejamos
que nos seja dito algo mais fundamental, mais profundo. A resposta que nos
satisfaz é: “isto é uma árvore”. Note que existem vários tipos de árvores, cada
uma com folhas específicas e cores próprias. Não são essas coisas que a fazem
ser uma árvore. A pergunta “o que é isto?” ultrapassa os dados dos sentidos2.
Os sentidos humanos captam
somente aquilo que é externo: cor, tamanho (visão), textura (tato), cheiro das
folhas ou dos frutos (olfato), gosto dos frutos (paladar), etc. Esses dados,
obtidos pelos sentidos, apenas percebem aquilo que distingue uma árvore das outras, mas não a sua
natureza subjacente3. Esta é percebida pelo intelecto. Ao fazer a pergunta: “o
que é isto?”, estamos procurando o conceito ou a definição.
Nem sempre é fácil dar a definição
de algo, pois, ao sermos perguntados, tendemos a responder com os aspectos
externos do objeto4. Se vimos uma porta, e nos perguntamos sobre o que é uma
porta, a nossa tendência é dizer que é um objeto de madeira, retangular, que
abre e fecha, todas essas informações retiradas do sentido da visão. Quando, no
entanto, dizemos que uma porta é um objeto que, se interpondo entre dois
ambientes, veda ou permite a passagem por ela, notemos que não distinguimos aí de
que é feita a porta, ou a cor, ou o formato, mas falamos sobre o que é “ser
porta”.
Tanto os sentidos quanto a
razão nos permitem conhecer as coisas. Com efeito, dizer que uma porta é azul
é, também, conhecer algo de um objeto em particular. Mas este azul será um dado
secundário à existência da porta enquanto porta. Conhecer algo, portanto, é,
primeiro, saber o que aquilo é e, só depois, distinguir-lhe as características
específicas.
O termo “intelecto”,
vindo do latim “intellectus”, pode significar “leitura por dentro”. Isso significa
que, enquanto os nossos sentidos percebem a aparência de um objeto, o nosso
intelecto penetra no objeto e capta o que ele é debaixo da aparência.
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1- Caracteres secundários - traços de um objeto que, se lhe fossem distintos, o objeto permaneceria sendo o que é. Ex.: cor, tamanho, etc.
2- Dados dos sentidos - informações que são percebidas pelos 5 sentidos, que são a audição, a visão, o olfato, o tato e o paladar.
3- Natureza subjacente - é a realidade que está sob as características secundárias. Por exemplo, a porta é a realidade que está sob a cor azul.
4- Aspectos externos dos objetos - o mesmo que caracteres secundários.
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