quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Parmênides - Nada Muda.


É outro filósofo de quem se sabe pouca coisa. Eles são muito antigos e pouca coisa sobre eles se conservou. Nasceu em Eléia, sul da Itália. Provavelmente era de família rica e foi aluno dos pitagóricos. Escrevendo em forma de poesia, Parmênides é considerado o filósofo pré-socrático mais profundo. Portanto, é também o mais difícil deles.

Opondo-se a Heráclito, Parmênides dirá exatamente o oposto: "Nada muda".

De que modo pode uma pessoa afirmar que nada muda se nós testemunhamos diariamente a mudança em tudo quanto existe? Há mudanças de lugar, mudanças de aparência, e mudanças internas. Com que base, então, Parmênides pode dizer que não há mudança? Estudemos o seu pensamento.

Há duas principais frases de Parmênides que, se as entendermos, haveremos de estranhamente concordar com ele.

Primeira frase: O ser é e não pode não ser.
Segunda frase: O não ser não é e não pode ser.

Esclareçamos, primeiramente, o que é "ser". Na verdade, "ser" é tudo o que existe. Qualquer coisa que possua existência é ser: pedras, plantas, animais, pessoas, ets, anjos, Deus, etc.

A afirmação "é" significa "existe". Se uma coisa existe, ela é. A cadeira na qual estou sentado existe. Portanto, posso dizer que ela é.

A expressão "não ser" significa aquilo que não tem ser, ou seja, aquilo que não existe. Poderíamos substituí-la por "nada". Pode também ser traduzida por "não existir". A expressão" não é" significa "não existe". 

Traduzamos, então, as frases de Parmênides substituindo os termos pelo que eles significam.

A frase "o ser é e não pode não ser" ficaria assim: "o que existe existe e não pode não existir"; ou ainda: "o que existe existe e não pode deixar de existir".


A frase: "O não ser não é e não pode ser" ficaria assim: "o que não existe não existe e não pode existir"; ou ainda: "o nada não existe e não pode existir".

Agora, analisemos uma a uma. Comecemos pela segunda:

"O não ser não é e não pode ser" - "O nada não existe e não pode existir"

Dizer que o nada não existe é óbvio, pois vimos que tudo quanto existe é ser. Se o "não ser" existisse, ele seria ser. Não ser seria ser, o que não tem sentido. Portanto, o "não ser" ou "nada" não existe.

"Jamais se conseguirá provar que o não-se é" Parmênides

Além de não existir, o nada não pode se tornar ser. Do nada, nada se faz. O nada não pode criar o ser, pois criar é um ato. Uma pessoa só cria algo depois que existe. Se o nada pudesse criar o ser, então o nada teria de ser algo, teria de existir. Vimos, ao contrário, que o nada não existe.

Seria possível que o ser se criasse a si mesmo? Também não, pois, se isso fosse possível, o ser teria que existir antes de existir: se criar é um ato e o ser passa a existir depois de ser criado, como ele poderia criar a si mesmo antes de existir? Não é possível. Conclusão: o ser não tem inicio. Existe desde sempre.

Vejamos agora a primeira frase:

"O ser não é e não pode ser" - "O que existe existe e não pode deixar de existir".

Que o que existe existe é óbvio. Ninguém em sã consciência duvidaria. No entanto, será possível que o que existe não pode deixar de existir? Vejamos.

Se algo existente deixa de existir, isso só é possível de dois modos: ou o ser é destruído por outra coisa fora dele, ou o ser se destrói a si mesmo. Não há terceira alternativa. Vejamos as duas.

O ser pode ser destruído por algo fora dele? Não pode, pois se houvesse algo fora do ser, esse algo existiria. Ora, tudo o que existe é ser. Portanto, esse algo fora do ser também seria ser. Logo, não estaria fora do ser. Conclusão: não é possível que o ser seja destruído por algo fora dele.

O ser pode se autodestruir? Também não pode, pois a propriedade do ser é existir, é ser. Se ele se autodestruísse, teríamos de admitir que dentro do ser haveria algo de não ser. Este algo, existindo, já seria ser. Além disso, se há algo de não ser dentro do ser, isso significa que ser implica não ser, ou seja, que ser é não ser, ou ainda, que ser e não ser são a mesma coisa, o que é absurdo. Conclusão: o ser nunca morre; existe para sempre.



Portanto o ser é eterno: existe desde sempre e para sempre. Nunca teve começo e nunca terá fim. O ser é.

"Resta-nos assim um único caminho: o ser é. Neste caminho há grande número de indícios: não sendo gerado, é também imperecível; possui, com efeito, uma estrutura inteira, inabalável e sem meta; jamais foi nem será, pois é, no instante presente, todo inteiro, uno, contínuo. Que geração se lhe poderia encontrar? Como, de onde cresceria? Não te permitirei dizer nem pensar o seu crescer do não-ser. Pois não é possível dizer nem pensar que o não-ser é. Se viesse do nada, qual necessidade teria provocado seu surgimento mais cedo ou mais tarde? Assim, pois, é necessário ser absolutamente ou não ser. E jamais a força da convicção concederá que do não-ser possa surgir outra coisa. (...) Como poderia perecer o que é? Como poderia ser gerado? Pois se gerado, não é, e também não é, se deverá existir algum dia. Assim, o gerar se apaga e o perecimento se esquece." Parmênides

"Necessário é dizer e pensar que só o ser é; pois o ser é, e o nada, ao contrário, nada é." Parmênides

Ok, mas e o que isso tem a ver com mudanças? Tem tudo a ver. Vejamos:

O que é mudar? É deixar de ser o que era e tornar-se o que não era. Uma parede que muda do branco para o azul deixa de ser o que era (branco) e passa a ser o que não era (azul). Analisemos:

Deixar de ser o que era - Passar do ser ao não ser. A parede era branca e não é mais. Ora, a passagem do ser ao não ser não existe, conforme vimos acima. Logo, essa mudança é impossível. Além disso, vejamos a outra parte:

Passar a ser o que não era - Passar do não ser ao ser. A parede não era azul e passou a ser. A passagem do não ser ao ser também não é possível, como vimos. Logo, essa mudança é impossível. 

Ora, toda mudança implica sempre deixar de ser o que era e tornar-se o que não era. Acabamos de concluir que isso não é possível, pois implica uma passagem do ser ao não ser e do não ser ao ser. Ora, se não é possível fazer essa passagem, então também não é possível mudar. Se não é possível mudar, a mudança não existe.

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Como, então, vemos mudanças em tudo que existe?

Sempre que notamos uma mudança, são os nossos cinco sentidos que percebem. Se saímos na chuva e nos molhamos, é o nosso tato, confirmado pela nossa visão, que nos diz que nos molhamos. Se uma comida estraga, é o nosso olfato que nos diz, etc. Os sentidos percebem a mudança. No entanto, a razão nos diz, pela lógica (como vimos acima), que não há mudança.

Sentidos e razão estão em conflito. A quem devemos dar crédito? Parmênides dirá que os sentidos geram a opinião, que é incerta, e que cada um tem a sua. A razão, ao contrário, gera a verdade, que é segura e vale para todos. É a razão, então, quem está certa. Logo, não há mudanças. As mudanças que percebemos com os nossos sentidos são meras ilusões.



Além disso, o ser não tem divisões em si, pois uma divisão é sempre um fim de um ser e começo de outro. Se admitíssemos, por exemplo, que há seres, isto é, que há um ser e, depois, outro ser, então teríamos de dizer que o primeiro ser acaba para que possa começar o segundo. Ora, se o ser acaba, então há o não ser, aquilo que tornaria o ser finito. Se, pelo contrário, não há o não-ser, então o ser não pode possuir divisões. Logo, ele é inteiro e contínuo. Parmênides dirá que ele é esférico, pois a esfera é contínua: não tem começo nem fim, e era considerada a figura mais perfeita pelos gregos.

"Também não é divisível, pois é completamente idêntico. E não poderia ser acrescido, o que impediria a sua coesão, nem diminuído; muito mais, é pleno de ser; por isto, é contínuo, porque o ser é contíguo ao ser."

"É sem começo e sem fim; pois geração e destruição foram afastadas para longe, repudiadas pela verdadeira convicção. Permanece idêntico e em um mesmo estado, descansa em si próprio, sempre imutavelmente fixo e no mesmo lugar." 

"É completo de todos os lados, comparável à massa de uma esfera bem redonda, equilibrada desde seu centro em todas as direções; não poderia ser maior ou menor aqui ou ali. Pois nada poderia impedi-lo de ser homogêneo, nem aquilo que é não é tal que possa ter aqui mais ser do que lá, porque é completamente íntegro; igual a si mesmo em todas as partes." Parmênides




Se o nada não existe, ele sequer pode ser pensado. Parmênides afirmará que é o pensamento, e não os sentidos, que percebe os atributos do ser. Por isso, pensar e ser são o mesmo. Só é possível pensar o ser, e não o não-ser, pois não é possível pensar o que não existe. O próprio pensamento, existindo, é ser.

"Pois pensar e ser é o mesmo"

"O mesmo é pensar e o pensamento de que o ser é, pois jamais encontrarás o pensamento sem o ser, no qual é expressado. Nada é e nada poderá ser fora do ser."

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